Em 27 de janeiro de 2026, Brasil e União Europeia anunciaram oficialmente o reconhecimento recíproco da equivalência dos níveis de proteção de dados pessoais entre a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD – Lei nº 13.709/2018) e o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (GDPR – Regulation (EU) 2016/679). Esse movimento representa um divisor de águas no cenário global de proteção de dados e na governança digital internacional, criando o que hoje se consolida como a maior área integrada de livre fluxo seguro de dados pessoais do mundo, abrangendo cerca de 700 milhões de pessoas.
A decisão estabelece um marco jurídico de confiança para a transferência internacional de dados pessoais entre Brasil e União Europeia, assegurando proteção de direitos fundamentais e segurança jurídica sempre que a circulação de dados se mostrar necessária para atividades econômicas, prestação de serviços, pesquisa científica, cooperação institucional e operação de plataformas digitais com atuação internacional. Na prática, o acordo facilita o comércio digital entre o Brasil e o bloco europeu e promove maior integração econômica, com redução de burocracia e simplificação das transferências internacionais de dados.
O que é a Decisão de Adequação e por que ela importa
A decisão de adequação é um instrumento jurídico previsto no art. 45 do GDPR, que autoriza a transferência de dados pessoais do bloco europeu para países terceiros sem a exigência de mecanismos adicionais — como Cláusulas Contratuais Padrão (SCCs) ou Regras Corporativas Vinculantes (BCRs) — desde que o país destinatário assegure um nível de proteção de dados considerado adequado ao padrão europeu.
No Brasil, a LGPD contempla mecanismos similares para o reconhecimento de regimes estrangeiros compatíveis, disciplinados pela Resolução nº 19 da ANPD, publicada ao final de 2025. O reconhecimento mútuo entre Brasil e União Europeia simplifica de forma significativa as transferências transfronteiriças, reduz custos de compliance, fortalece a segurança jurídica e acelera o comércio digital e a cooperação tecnológica entre as jurisdições, eliminando a necessidade de cláusulas contratuais específicas, auditorias técnicas recorrentes e estruturas complexas de governança internacional.
A adequação não é fruto do acaso, mas sim de uma simetria normativa sem precedentes. Embora o GDPR seja mais extenso e detalhado, a espinha dorsal jurídica dos dois diplomas é praticamente idêntica. Ainda que distintas em origem e densidade normativa, a LGPD e o GDPR apresentam convergências estruturais relevantes que sustentaram a decisão de adequação.
Escopo Territorial
O GDPR possui escopo extraterritorial explícito, aplicando-se a controladores e operadores que ofereçam bens ou serviços a indivíduos localizados na União Europeia ou que realizem o monitoramento de seu comportamento.
A LGPD, por sua vez, também alcança operações de tratamento realizadas fora do território nacional quando os efeitos recaem sobre indivíduos localizados no Brasil. Ambos os regimes compartilham o princípio da territorialidade funcional, garantindo a proteção dos dados pessoais independentemente da localização física do tratamento.
Bases Legais para o Tratamento
Tanto a LGPD quanto o GDPR adotam um rol de bases legais substancialmente semelhantes, incluindo, entre outras:
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consentimento livre, informado e inequívoco;
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execução de contrato ou de procedimentos preliminares;
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cumprimento de obrigação legal ou regulatória;
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proteção da vida ou da incolumidade física;
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políticas públicas;
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interesses legítimos;
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tutela da saúde.
Essa convergência foi determinante para a avaliação de equivalência entre os regimes.
Direitos dos Titulares de Dados
Ambos os diplomas consagram um conjunto robusto de direitos aos titulares, tais como:
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direito de acesso e retificação dos dados;
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direito à eliminação, bloqueio ou anonimização;
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direito à portabilidade;
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limitações ao tratamento automatizado, inclusive à definição de perfis com efeitos legais ou significativos;
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direito à informação clara e adequada sobre o tratamento e suas finalidades.
Apesar de nuances redacionais e procedimentais, o escopo material desses direitos é considerado essencialmente equivalente pelas autoridades europeias e brasileiras.
Responsabilidade e Sanções
O GDPR prevê sanções administrativas que podem alcançar €20 milhões ou até 4% do faturamento global anual da empresa. A LGPD, por sua vez, estabelece multas de até 2% do faturamento da pessoa jurídica no Brasil, limitadas a R$ 50 milhões por infração.
Embora exista diferença de magnitude nos valores, essa disparidade não foi considerada impeditiva para a adequação, uma vez que ambos os regimes demonstram capacidade dissuasória efetiva, além de estruturas institucionais voltadas à fiscalização e responsabilização.
Impactos Econômicos e Desafios Regulatórios
Nesse novo contexto, empresas brasileiras passam a ter acesso facilitado a um mercado europeu de aproximadamente 450 milhões de consumidores. Investidores tendem a perceber maior previsibilidade regulatória, enquanto startups e setores intensivos em inovação ganham condições para escalar suas operações com menos barreiras relacionadas à transferência de dados essenciais ao desenvolvimento de produtos e serviços digitais.
Apesar dos benefícios, há pontos que demandam atenção crítica. O reconhecimento de equivalência pressupõe governança regulatória contínua. A ANPD e as autoridades europeias precisarão manter mecanismos de supervisão e monitoramento permanentes para garantir que o nível de proteção não se deteriore ao longo do tempo.
Também devem ser considerados os riscos associados às transferências simplificadas, que naturalmente ampliam o volume de fluxos transfronteiriços. Incidentes de segurança ou violações de dados em uma jurisdição podem gerar efeitos em cadeia, impactando titulares em ambos os blocos, o que exige planos robustos de resposta a incidentes, governança de riscos bem estruturada e auditorias periódicas.
Mesmo sob a lógica de que “mais poder gera mais responsabilidade”, o acordo de adequação entre Brasil e União Europeia representa um marco jurídico e político sem precedentes. Ao mesmo tempo, essa nova fase demanda vigilância institucional, maturidade organizacional e cultura corporativa sólida de proteção de dados, sob pena de os direitos fundamentais à privacidade se tornarem meramente formais.
Reflexos Diretos para o Setor de Tecnologia
Dentro do nicho de tecnologia, como setores de cloud computing e infraestrutura digital, por exemplo, a decisão de 2026 cria um cenário de reciprocidade técnica e regulatória. Se uma empresa europeia hospeda dados em uma nuvem brasileira, passa a existir a presunção legal de que os níveis de proteção são equivalentes. Isso permite que provedores locais concorram diretamente com grandes players globais, oferecendo baixa latência, conformidade nativa com a LGPD e vantagens competitivas relevantes.
A decisão de adequação transforma a proteção de dados de uma mera obrigação regulatória em um ativo comercial estratégico. Para prestadores de serviços de tecnologia, a mensagem é clara: a conformidade com a LGPD deixou de ser apenas um requisito doméstico e passou a ser a porta de entrada para um mercado global altamente regulado e economicamente relevante.
A adequação entre Brasil e União Europeia inaugura um novo ciclo para empresas de tecnologia que operam — ou pretendem operar — em ambientes internacionais. A partir de 2026, compliance em proteção de dados não é apenas mitigação de risco, mas um diferencial competitivo concreto, capaz de acelerar negócios, atrair investimentos e viabilizar parcerias estratégicas com players europeus.
Para empresas de tecnologia, cloud, SaaS, infraestrutura e inovação, o momento é estratégico: quem se posicionar agora, com orientação jurídica adequada, estará um passo à frente na maior área de livre fluxo de dados do mundo.
Como o Assis e Mendes pode apoiar
O Assis e Mendes acompanha de perto os impactos jurídicos, regulatórios e contratuais da adequação entre LGPD e GDPR e está preparado para apoiar empresas que:
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Operam com transferência internacional de dados entre Brasil e União Europeia;
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Precisam revisar ou estruturar contratos internacionais de tecnologia, cloud, SaaS e infraestrutura digital;
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Buscam segurança jurídica e governança regulatória em um ambiente de livre fluxo de dados;
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Desejam transformar compliance em proteção de dados em vantagem competitiva.
Em um cenário regulatório global cada vez mais integrado, antecipar riscos e estruturar corretamente a estratégia jurídica é o que diferencia empresas líderes daquelas que apenas reagem às mudanças.
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Sobre a Autora
Fernanda Soares é advogada do Assis e Mendes, atuando também como DPO, com foco nas áreas Empresarial, Contratual, LGPD e Compliance, além de exercer a função de Controller Jurídico. Possui ampla experiência em governança corporativa, proteção de dados e segurança da informação, apoiando a estruturação jurídica e consultiva de empresas de diversos segmentos.
Especialista em Compliance, Governança Corporativa e Direito Digital, com MBA em Direito Digital e Novas Tecnologias, possui certificações em privacidade, proteção de dados e segurança da informação por instituições como IBSEC, ITCERTS, FGV, Cisco e FIAP.
